Vadalilyum coletivo de arte
Letícia Soares

Praça dos Quinze

Crônica selecionada para compor a antologia As sete almas dos gatos, do Selo Off-Flip, em 2026

Uma das minhas crônicas fará parte este ano da antologia As sete almas dos gatos, do Selo Off-Flip, que vai reunir textos inéditos ou publicados de autoras e autores do Brasil e do exterior e que tenham como tema ou façam referência aos gatos e sua fascinante e misteriosa simbologia.

A peça, intitulada "Praça dos Quinze", foi originalmente publicada no meu livro Crônicas que te Conto, do Clube de Autores, em 2018. A versão que será publicada na antologia tem formato e tamanho adaptados, mas aqui vai o texto original para quem quiser dar uma espiada:

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Quinze gatos se aglomeram em uma praça. Ali, não há pombo que se atreva a chegar; ao menor descuido, pode virar almoço de um bichano vira-lata faminto. Mas são quinze gatos. De cores e tamanhos variados. Não são família, porque gato de rua não tem família e nem amigos. A expressão lobo solitário cairia melhor se trocada por felino solitário. Ou só felino, senão seria redundância. Taí o adjetivo que melhor descreve aquele que anda só e desgarrado, vivendo sob suas próprias regras, regido pela malandragem e ao melhor estilo vida louca.

Pois, ali, quinze. Tem preto, branco, malhado, laranja, rajado, tricolor, fêmea, macho, adulto, filhote, um caolho e outro da pata manca. Eles aceitam conviver, apenas. Cada um à sua sombra, numa mesma praça, muito próxima a um mercado de peixe. E essa é a razão de estarem ali e permitirem a aproximação física uns com os outros. Veja bem, aproximação, mas não proximidade. Eles se permitem dormir tranquilos sem serem atacados uns pelos outros, mas interação é outra coisa.

A comunidade dos quinze gatos da praça tem uma moral própria, um conjunto de costumes velados e territórios bem definidos, é verdade. O alaranjado, mais velho de todos, tem seu lugar de descanso garantido embaixo do banco de concreto; ali, ninguém mais se atreve a dormir. O rajado cinza gosta de passar o dia ao lado de uma árvore baixinha, não pela sombra que proporciona, senão por poder roçar sua pele nos galhos secos que lhe aliviam a coceira causada pelas pulgas. Já a branca magrinha que tem olhos bicolores – um azul e outro verde – não se importa em estar aninhada junto a um grupo de filhotes brincalhões, que passam o dia fazendo estripulias.

Ali naquela comunidade felina, cada um batalha pela própria sobrevivência, do jeito que dá. Durante o dia, estão todos sob o sol – ou fugindo dele. Mas quando cai a noite é que a aventura começa, e já não se vê um sequer na pracinha. Foram em busca de comida e alguma diversão. Nas noites naquela cidade o que mais se vê é gato. Tem em todo canto. A começar – e principalmente – pelo tal mercado do peixe. Ali é o paraíso.

Na parte posterior do mercado, voltada para a praia, há um espaço de bares e restaurantes. Os clientes costumam comprar os peixes e frutos do mar frescos no mercado e pedir para os estabelecimentos fazerem o preparo. E é por ali que rondam os gatinhos, já que, em geral, não obtêm sucesso diretamente nas tendas que vendem os peixes crus.

É que a cara de um gato é irresistível, e eles sabem disso. Um miado baixinho, então, nem se fala. Os frequentadores daqueles bares não pensam duas vezes em jogar o resto da comida que sobrou para eles, garantindo, assim, a refeição diária dos bichanos, sem que precisem fazer muito esforço.

Um dos felinos, o mais espertinho de todos, conseguiu uma vez achar três camarões fritos que haviam sido atirados em meio a um arbusto frondoso. Rondou e rondou por uns cinco minutos até entender como entrar no meio daquelas folhas e capturar sua presa crustácea envolta em óleo de cozinha. Catou o primeiro e o levou para fora do matagal; não levou dez segundos para devorá-lo, com cabeça, casca e tudo. Repetiu o feito outras duas vezes e – pronto – se sentiu devidamente recompensado, ao que deu meia-volta e retornou ao seu cantinho na praça para uma rápida siesta antes de continuar as aventuras noite adentro.

É verdade que nem sempre a vida dos gatos da pracinha é tão fácil assim. Eventualmente, têm que correr de gente que quer maltratar. Têm que se abrigar da chuva e do frio ou do sol forte que castiga. De vez em quando enfrentam cachorros brigões ou até outros gatos forasteiros e saem feridos. Outras vezes, perdem um companheiro de comunidade que foi atropelado. Sujam-se de lixo ou cocô de outros animais e são obrigados a lamber-se. Comem algo envenenado. São picados por insetos. Queimam as patas na calçada quente. Não encontram água limpa para beber.

Em alguns dias de sorte, voluntários de uma ONG passam para dar-lhes um acalento. Trazem ração de pacote, da melhor marca. Espalham vasilhas em alguns pontos da praça e as preenchem com água cristalina e fresquinha. Fazem curativos e dão remédios para aqueles que estão judiados. Aplicam vermífugos e levam os mais filhotes para receber as principais vacinas. Carregam consigo outros em idade reprodutiva para serem castrados em clínicas veterinárias, para prevenir doenças e que a comunidade de gatos de rua cresça ainda mais. Tem aqueles bichanos que conseguem ser adotados. Um sozinho, às vezes dois juntos, geralmente, filhotes. Vão para um lar com mais conforto e cuidados, e que sorte a deles.

Curioso é que, ali, sempre somam quinze. Ninguém nunca foi capaz de entender esse mistério. Se um se vai e ficam catorze, logo chega um novo. Se aparecem dois a mais, subindo para dezessete, rapidamente outros dois somem. Uns vão, outros chegam, alguns morrem, outros nascem, uns são adotados e outros são despejados. Mas, naquela praça, quinze – nem um a mais, nem um a menos.