Inteligência poética artificial
A vida imita a arte, a IA imita a vida, a IA imita a arte
Ei! Ai… a criatividade literária humana sumindo. Chegou o formato formatado, robotizado, com seus indícios mecanizados. A poesia, que antes ia, agora IA. A liberdade, mesmo que tardia, agora se esvai. É o princípio da mais-valia, Marx dizia. É o aumento da produtividade, a expansão da disparidade – e a originalidade, onde fica?
Pronto, é o prompt. O mais novo ramo da engenharia. Diga-me com quem andas, e eu te direi como escreves. Escreverei como queres. Não só isso, mas aquilo. Abundante, carregado, saturado em adjetivos. Três, sempre três. Ou me direcione melhor, dona engenheira. Senão, eu alucino – e não de uma maneira aprazível. Aliás, enterre esse travessão; aqui jaz, para não dar i-de-ia errada.
Fui eu que escrevi sim. E agora eu tenho que escfrever errado. Pra mostrar q sou eu mesma. Pq eu escrevia certo com virgula, acento e tudo e a té travessão mas aí cheogu a IA pra mostrar q ela é que escreve certo, não eu.
E se eu escrever direito, eu não sou humana, eu sou ela. E eu não quero ser ela. Quero ser eu mesma, que escrevo direito. E certo.
Certo é que a gente sabe quando ela escreve um texto literário. Ou talvez não. Mas, agora, a gente desconfia de tudo. A IA matou o travessão humano. E também o floreio retórico, a pausa dramática, a ênfase excessiva, os advérbios desnecessários, o formato decorativo, até os clichês, coitados. Eles faziam parte. Porque a escrita criativa vem dos sentimentos, e os sentimentos são cheios dessas coisas todas, às vezes.
A IA me fez me questionar como escritora. Como escrever sem parecer IA? Mas também: como competir com ela? Será que ela ganharia um Pulitzer? Mas, também, será que eu o ganharia?
O bloqueio criativo, componente de quase todo o ato de escrever, já não precisa mais existir. Um prompt com “continue essa ideia", já desbloqueia os obstáculos da imaginação. É bom, mas é ruim. É eficiente, mas deficiente. A escrita tem alma, e ela muitas vezes precisa ser forjada na dor do bloqueio, do anseio de um término que não chega, na incompletude de uma ideia, no rascunho jogado fora vez após vez.
Ih! Deixa essa inteligência artificial criar poema.
Ah! Faça textos bonitos, dona IA.
Se você gerar paz e não guerra, já tá bom.
Mas, a arte humana, perfeita na sua imperfeição, a arte da alma, essa também não pode morrer. Podemos conviver juntas. E esse espaço, desenvolvido por uma IA, mas escrito por uma humana, tá aqui pra não deixar essa criatividade morrer. Para ser poética e inteligente, mas sem ser artificial.